A vida no condomínio pela perspectiva do cinema

Antes de qualquer coisa, filmes e seriados precisam de um cenário que transmita o clima desejado. Mais do que um protagonista, o ambiente é o palco de aventuras e diálogos que tanto deliciaram na telinha ou no sofá da sala – sempre ajudando a contar uma boa história. O apartamento surge principalmente como personagem-cenário de filmes urbanos, onde metrópoles de ar cosmopolita inspiram as mais diversas interações entre a ficção e uma realidade verticalizada.

Bonequinha de Luxo. O clássico dos anos 60 traz Audrey Hepburn no papel de uma socialite que transita pelo mundo de aparências e ostentação da Grande Maça, sendo sustentada por um mafioso. Em seu apartamento, Holly Golightly tem uma vida despreocupada, uma decoração adorável, um vizinho bonito, dá festas, toca violão na janela do quarto e cria seu querido gato de estimação. Aprendemos com a jovem nova iorquina que uma pequena cozinha não é um problema, que malas de viagem podem ser itens de decoração, que uma banheira pode ser um sofá e que não é preciso tanta ordem para se ter conforto no lar. À época, o filme recebeu a indicação ao Oscar de melhor direção de arte, que envolve a concepção visual do filme, com destaque especial para o set de filmagens, ou seja, o cenário.

O cinema brasileiro também traz o apartamento como símbolo de uma convivência contemporânea específica. O Som ao Redor (2012), do diretor Kleber Mendonça, se passa num bloco de edifícios residenciais e conta histórias de personagens da classe média, moradores de um bairro da zona sul de Recife. No desenvolvimento do filme, percebe-se na linha do tempo das gerações, pessoas que já nasceram em prédios e ali construiram toda sua rede de sociabilidade, bem como a nostalgia da rua de calçamento e a ausência de construções de mais de um andar. É um olhar sobre a verticalização como reflexo de um estilo de vida urbano e por isso dinâmico, cheio de dramas íntimos e relações de conflito. O filme até mesmo retrata uma assembleia de condomínio que discute o problema da segurança do prédio, passando pela decisão de despedir ou não o tradicional porteiro por este dormir nas madrugadas em serviço.

Her (2013). A mais recente obra de Spike Jonze, diretor de Quem quer ser John Malkovich (1999) e Onde vivem os monstros (2009) se passa em uma Los Angeles não tão distante no futuro, onde um jornalista introvertido, Theodore (Joaquin Phoenix), começa um romance intrigante com um aplicativo de inteligência artificial, Samantha (uma atuação marcante de Scarlett Johansson, apenas com a voz). O apartamento do personagem principal fica pra lá do vigésimo andar e divide a paisagem com arranha céus, imensas janelas de vidro e uma multidão de pedestres lá embaixo. Apesar da grande quantidade de seres humanos, Theodore não consegue criar relacionamentos afetivos estáveis – aqui se coloca o dilema de uma cidade cheia de gente, mas ainda assim existirem indivíduos solitários.

Quem não reconheceria o apartamento de Mônica, a chef de cozinha com mania de limpeza da série Friends (1994-2004)? Reunidos na sala de estar de paredes roxas, Rachel, Mônica, Phoebe, Joey, Chandler e Ross tem alguns dos diálogos mais divertidos da década de 90. O loft ali retratado ressalta a ideia de um grupo de pessoas independentes, com amigos interessantes e a comédia dramática de uma vida adulta. Já o apartamento que Joey divide com Chandler tem proporções mais modestas em relação ao de Mônica, mas é tido como mais consistente e realista para dois homens financeiramente na média poderem sustentar – o lugar é também um testamento do estilo de vida preguiçoso dos dois.

Impulsionada pelo sucesso da série norte americana, a trama de Sai de Baixo (1996-2002) seguia uma desastrada, porém bem humorada, família decadente no apartamento de Vavá, que abrigava sobre seu teto a irmã, Cassandra, que leva consigo a filha, Magda e o marido desta, Caco Antibes.  Vavá é o sindico do prédio onde mora, o Arouche Towers, motivo pelo qual a presença do porteiro Ribamar ser tão frequente. Seu sucessor mais moderno, o sitcom Toma Lá Dá Cá (2005-2009) trazia um condomínio, o famigerado Jambalaya Ocean Drive, como um dos palcos de confusões e gargalhadas.

Em Big Bang Theory (2007- 2014) o apartamento de Sheldon Cooper chega a ser um personagem a parte. A disposição dos móveis reflete o senso científico de seus moradores e recebe constantemente a irreverente visitas dos seus amigos, pesquisadores do Caltech, um importante centro tecnológico da Califórnia. A tradicional mesa do computador, a TV conectada sempre que possível a um vídeo-game também deixam perceber o estilo nerd dos rapazes. A vizinha charmosa, Penny, é a moradora do apartamento 4B. O elevador  quebrado faz com que as cenas na escada sejam valorizadas, uma vez que pressupõe um momento de interação entre os personagens.